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Entrevista com Fernanda Carvalho sobre a segunda fase da campanha PDF Imprimir E-mail

Fernanda Carvalho fala sobre a segunda fase da campanha 

Desafio ao enfrentamento do racismo velado


A gente levou o nosso afilhado de três anos numa festa e uma criança, da mesma idade, disse pra ele:
– Minha mãe detesta gente preta. E eu também.
(Ana Carolina Delgado, produtora de moda)

Eu estava no ônibus com meu ex-marido, que é branco. Teve uma blitz. Fui a única a ser revistada.
(Luzia de Cássia, empregada doméstica)

 

Os casos relatados são verídicos e integram – com mais 18 depoimentos de pessoas voluntárias – os spots para TV da segunda fase da campanha Onde você guarda o seu racismo?, lançada oficialmente em 11 de maio, na sede da Firjan, no Rio. A campanha é promovida por mais de 40 organizações da sociedade civil de todo o país, entre elas o Ibase e a ActionAid Brasil, reunidas no grupo Diálogos contra o Racismo. Além dos comerciais para TV – a serem veiculados gratuitamente por emissoras interessadas a partir da segunda quinzena de maio – a iniciativa contará com busdoors, cartazes e panfletos.

Uma das novidades da campanha é que ela é voltada, prioritariamente, para a população não-negra. A iniciativa, que em seu início lançou a pergunta Onde você guarda o seu racismo?, mostra, na segunda fase, algumas situações cotidianas nas quais o racismo se revela. O objetivo é chamar a atenção para a freqüência desses acontecimentos no dia-a-dia – e estimular as pessoas a identificarem seu próprio preconceito para livrar-se dele – uma pesquisa mostrou que apenas 4% de brasileiros(as) admitem ser racistas.

 

Ibase – Como será a segunda fase da campanha?

Fernanda Carvalho – Esta segunda fase da campanha terá 5 spots de 30 segundos a serem exibidos gratuitamente por emissoras interessadas. A TV Globo veiculará os filmes a partir da segunda quinzena de maio; a TVE já demonstrou interesse. Haverá ainda busdoors, panfletos, entre outros materiais gráficos. As situações retratadas foram identificadas por intermédio do site do Diálogos contra o racismo e são as mais comuns. As pessoas que contam as suas histórias nos filmes foram convidadas pelas organizações que participam da campanha Onde você guarda o seu racismo?. Elas deram depoimentos de forma voluntária. Um dos objetivos da campanha em 2006 será intensificar as ações nas empresas e escolas.

 
Ibase – Qual o balanço da primeira fase da campanha?

Fernanda Carvalho – A campanha foi lançada em dezembro de 2004 e as organizações da sociedade civil reunidas no grupo Diálogos contra o Racismo consideram o saldo extremamente positivo. A iniciativa tem recebido o apoio de diversas organizações de todo Brasil, como escolas, prefeituras, rádios, sindicatos, empresas e muitas, muitas pessoas. A campanha obteve a adesão de veículos como Rede Globo, Globonews, TV Educativa, TV Cultura, TV Senado, TV Câmara, TV Viva de Pernambuco, redes de cinema Cinemark e rede cinemas Estação, Rádio Mec, Rádio Fala Mulher e rádios comunitárias de vários estados: RJ, BA, ES, PE, PA, Brasília, SP e RS. Além disso, foram distribuídos 85 mil folhetos, 10 mil bottons, 5 mil cartazes, 50 busdoors e 50 outdoors. O site da campanha recebeu nos últimos 12 meses mais de 64 mil visitas e tem sido importante meio de diálogo sobre o problema do racismo.

 

Ibase – O que é o Diálogos contra o racismo?

Fernanda Carvalho – O Diálogos tem como meta a troca de experiências e idéias sobre a questão do preconceito racial. A iniciativa surgiu a partir da constatação de que o problema do preconceito racial, invisível para muitos, principalmente para aqueles que não sofrem com ele, deveria ser tratado pela sociedade brasileira como um todo – e não apenas pelos afrodescendentes e suas organizações.

 

Ibase – Como funciona a campanha Onde você guarda o seu racismo?

 

Fernanda Carvalho – A campanha pretende estimular a realização de inúmeros ‘diálogos sobre o racismo’ nas famílias, condomínios, locais de trabalho, escolas, rodas de amigos e amigas. Para apoiar e incentivar essa mobilização a campanha funciona por meio de articulações e redes de organizações, instituições e movimentos em todo o país.

 

Ibase – Qual a importância do Diálogos?

Fernanda Carvalho – O preconceito racial existe e faz mal para todas as pessoas, não só aos negros, e para toda a sociedade. Além de reprovável sob qualquer ponto de vista, dificulta a superação de graves distorções sociais. Relatório lançado em 2005 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, mostra que 64% da população de baixa renda no Brasil é composta por pessoas negras, aproximadamente 25 milhões. Podemos ver que a pobreza no Brasil tem cor. Quase 80% dos jovens assassinados, entre 16 e 24 que anos, são negros. E uma mulher negra ganha quatro vezes menos do que um homem branco. O racismo é um obstáculo para a consolidação de uma sociedade mais justa e democrática, na qual todas as pessoas sejam realmente cidadãs.

 

Coordenação de Diálogos contra o racismo:

Ibase, Observatório da Cidadania, ActionAid Brasil, Abong, Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras, Criola-Rio, Cfemea (Brasília), Articulação de Mulheres Brasileiras, Comunidade Bahá'í (Brasília), Fase (Rio), Instituto Patrícia Galvão (SP), Cesec-Ucam (Rio), Rede Dawn (Rio), Cedec (SP), Geledés/Instituto da Mulher Negra (SP), Inesc (Brasília), Redeh (Rio)

 
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Você Sabia?...

No Brasil, os riscos de morte por assassinato são 86,7% maiores para pessoas negras do que para brancas.

 

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